República Empresarial

O surgimento da República Empresarial tornou-se evidente no mandato de Fernando Collor, na virada dos anos 90, ainda que a gestação tenha sido abortada… Foi candidatura e governo que, devidamente inflados pelos porta-vozes da dominadora corrente internacional do neoliberalismo, deixou campo livre para o empresariado, ainda que cobrasse pedágios tão caros… Que Collor exagerou é fato: logo perdeu seus créditos junto aos comunicativos poderes que construíram a sua imagem.

Sim, terá havido sinais da República Empresarial em momentos anteriores da nossa História. Só que neste momento o contraste foi muito evidente: Sarney é de uma era pré-empresarial, como demonstra, até hoje, o seu vasto domínio maranhense…

Itamar Franco pode não ter entendido muito bem o que acontecia, mas não deixou de receber a devida colaboração da República Empresarial, à época interessada em apurar o foco e deixar toda uma inflação de interesses desencontrados para trás.

Mas, é em FHC, enquanto os negócios crescem e se abrem todas as portas econômicas do país, que o corpo simbólico da República Empresarial se corporifica, assumindo um ativo papel de mentora de ideias, cujo bom exemplo é a Lei Rouanet. A partir daí, enquanto o povo paga a conta, as empresas passam a dirigir até a cultura, o que parece piada para quem critica (e também para quem aplaude) qualquer tipo de “dirigismo”… O simbólico tem o seu público e sempre recebe aplausos, mas a realização concreta (e dura) do poderoso espírito da República Empresarial será mesmo imposta através das mais espertas privatizações, uma espécie de imposto ao contrário… É quando a empresa passa a ser um braço (o mais “malhado”) do governo. Talvez por isto, fica cada vez mais forte: o Estado se encolhe diante dele…

É certo que para tal conceito não há, ainda, ciência completa… Os tempos são outros e estes poderes vão assumindo novas formas e maior eficiência. Embora, para disfarçar, aceitem o legado formal de antigas revoluções políticas, querem ser reconhecidos. Procuram atuar como sistema de governo (daí, “República”), dispensando-se de ser organização partidária ou poder institucionalizado. A República Empresarial é, antes de tudo (e muitas vezes não passa de), um conluio, uma ação entre amigos. Ou uma rede social, embora não seja nada virtual quando o dinheiro rola… Nela, as empresas não fornecem serviços aos governos, estes é que estão a serviço das empresas.

A base política da República Empresarial é o político dominado, o aproveitador dos confortos que a grana traz, o bom rapaz que se diferencia de suas origens, não só pelo caráter mais também pelo oportunismo. E, muito especialmente, por uma boa conversa ao vender (e defender) o peixe pré-embalado dos projetos que as empresas vão criando e que eles apresentam como seus…

Lula não mudou o quadro. Suas origens criaram dúvidas, mas logo a República Empresarial o “enquadrou” através da imediata ameaça, nos primeiros meses, de desorganizar o país, ah, a lembrança de Allende!… Afinal, Lula é sindical, conhece o jogo: não só os ganhos, também os riscos. É claro que há reviravoltas e crises pelo mundo e houve perdas para a República Empresarial. Aqui, nas internas, ressurgiram políticas de Estado, do social ao industrial, as quais, à custa de descaracterizações altamente democráticas, tiveram relativo sucesso, não tanto no resultado, pelo menos por terem sido implantadas.

Da preponderância da República Empresarial nos negócios do Brasil há cachoeiras de exemplos… O planejamento se transformou em colchas de retalhos: os empresários costuram as obras e os políticos as anunciam como realização pessoal. Sendo o local universal, basta observar os transportes no Rio de Janeiro. Há empresários das barcas da baía de Guanabara concorrendo com eles mesmos nas linhas de ônibus da ponte Rio-Niterói… Há concessionários de metrô que emendam duas linhas e tumultuam a operação, mas ganham prorrogação da concessão em 20 anos e, ainda mais, a expansão desta gambiarra até a Barra, o que evita nova licitação… Há a completa ausência de previsão de implantação do metrô em áreas de expansão da cidade, como no Porto Maravilha, onde os projetos imobiliários multiplicarão a presença humana, com seus muitos prédios “de até 50 andares”… 

A República Empresarial se sustenta na sensação (que passa…) de alta produtividade. A empresa privada é dita sempre mais eficiente e útil que o paquiderme estatal, pena que não se diga que o critério é a mera exploração do alheio… Afinal, no correr dos tempos, o embalo da República Empresarial vai se mantendo pelo apelo ao Progresso, este insepulto cadáver que o Capital exibe à frente de exércitos de cobradores de juros…

De tão ilustre defunto saem os miasmas que envenenam o mundo, por mais que plastifiquem a desequilibrada realidade social ou insistam na defesa de uma insustentável expansão econômica. Infelizmente, no ambiente local e neste sentido do questionamento do progresso, não há progresso: Dilma também reza por esta mística… E espera que o pré-sal (com o luxurioso auxílio de todas as commodities) a sustente. 

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